Diocese de Palmas e Francisco Beltrão

Bem Vindos, 18 de Agosto de 2017

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► JORNAL DIOCESANO

    09/08/2017, por "Pe. Emerson Detoni"

    Esclarecendo a Fé

    Pe. Emerson Detoni

    Fui casada por 10 anos, minha convivência era um "inferno", me separei, hoje vivo numa segunda união e vivemos maravilhosamente bem. Tenho um filho do primeiro relacionamento e um deste segundo. Por que não posso receber a Eucaristia, se muitos vivem um casamento de aparência e a recebem? Trata-se de um tema delicado. Não é possível uma resposta em termos de "permissão", "proibição", "irregularidade" e "liberação". Quando o Papa Francisco propôs a Família como tema do Sínodo dos bispos (2014-2015), muitas expectativas foram criadas sobre a Eucaristia para os casais em segunda união. E muitos esperavam uma resposta simplista e legalista. Porém, a preocupação do Papa é de convidar para um processo de conversão verdadeiro, total, em busca da comunhão com Deus. Por isso, insiste muito na necessidade de incrementar a arte do acompanhamento, da acolhida, da proximidade com as diversas situações.

     Respondendo a pergunta do "Por que não", o Papa João Paulo II, no documento, Familiares Consortio, número 84 afirma: "A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a

    Igreja, significada pela Eucaristia (...).

     A reconciliação pelo sacramento da penitência - que abriria o caminho ao sacramento eucarístico - pode ser concedida àqueles que arrependidos (...), estão dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a indissolubilidade do matrimônio. (...) Assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos cônjuges". Da citação acima, vale ressaltar: a. A indissolubilidade do matrimônio se fundamenta no amor fiel e absoluto de Deus para com o seu povo realizado de maneira plena em Cristo. Daí conclui-se que, uma nova união, quebrando a antiga aliança, contradiz a união de Cristo e a Igreja. Pois o parceiro (a) não é o mesmo (a) do Sacramento do Matrimônio. b. Uma segunda união não é o ideal que o Evangelho propõe para o matrimônio e a família (Mc 10,5-9). E mesmo nos casos excepcionais, onde a separação, parece ser a melhor atitude a ser tomada (principalmente em casos de violência física ou psicológica), não dá para esconder a luz do ideal mais pleno do matrimônio, nem propor menos de quanto Jesus oferece ao ser humano. c. Uma segunda união, configura-se em adultério. "Todo aquele que repudiar a sua mulher e desposar outra, comete adultério contra a primeira; e se essa repudiar o seu marido e desposar outro, comete adultério" (Mc 10,11-12). O adultério é um pecado grave. A pessoa em pecado grave, deve buscar o sacramento da Confissão como caminho para a Eucaristia. Mas a Confissão exige arrependimento e mudança de vida. d. Por fim, o texto sugere a possibilidade de absterse dos atos próprios dos cônjuges e viver como irmãos. 

     Embora para muitos, isso pareça impossível, são incontáveis os testemunhos bonitos nesse caminho de santificação. É verdade que nós tivemos um novo documento, agora do Papa Francisco, Amoris Laetitia, no qual ele insistiu muito no acompanhamento pastoral e na integração dos casais em segunda união na vida da Igreja. O grande pedido do Papa aos bispos e padres é o de acolher, ouvir com atenção e propor um caminho de integração. Tendo presente que integrar não quer dizer "comungar".
     
    O Papa não diz que uma segunda união é "normal". Continua tratando como situação "irregular". Mas afirma que "já não é possível dizer que todos os que estão em uma situação chamada ‘irregular' vivem um estado de pecado mortal, privados da graça santificante" (AL 301). E citando o Catecismo da I g r e j a , l e m b r a q u e : " A i m p u t a b i l i d a d e e responsabilidade de um ato podem ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância, a inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as afeições desordenadas e outros fatores psíquicos e sociais" (CaIC n. 1735 e AL 302). E acrescenta, "é possível que uma pessoa, no meio de uma situação objetiva de pecado - mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente -, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja" (AL 305).

     Os bispos da região pastoral de Buenos Aires escreveram ao Papa Francisco uma carta, onde apresentaram alguns critérios de aplicação da Exortação Amoris Laetitia. Eles apresentam justamente esse acompanhamento, que não será uma simples conversa. Mas um processo de discernimento para descobrir em consciência qual é a situação real diante de Deus e para que tomem decisões que proporcionem uma maior integração na comunidade cristã até chegar, se for o caso, e em casos bem determinados à participação nos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia. Esse caminho deve ser realizado no foro interno entre o casal e um padre que os acompanhe. Havendo a percepção de que não se pode imputar culpabilidade naquele caso, que o abandono da situação atual levaria a cometer uma nova culpa e que o casal busca viver em união com Cristo, receber a Eucaristia seria, sim, uma possibilidade válida.

    O mesmo caminho não acaba necessariamente nos sacramentos. Mas vai conduzir a uma maior presença na comunidade, a participação em grupos de oração ou de famílias, o compromisso nos diversos serviços eclesiais, nos serviços de caridade. A mesma carta dos bispos argentinos diz que não convém falar de "permissões" para os sacramentos, mas de um processo de discernimento acompanhado por um padre ou pelo bispo, visto que a participação na vida da Igreja não pode ser reduzida à recepção dos sacramentos.

    É uma pergunta que não pode ser respondida de maneira simplória. O importante é não reduzir toda a riqueza do documento papal ao "pode ou não pode". É preciso conversar com o padre na sua paróquia ou com a Pastoral Familiar e dispor-se a um longo caminho. O discernimento não se acaba, é dinâmico. Amoris Laetitia é um documento para ser estudado e assimilado. Vale lembrar ainda que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ainda não emitiu nenhum posicionamento oficial no que diz respeito ao tema.

     

     

     

     

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